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OS DESAFIOS DA RECUPERAÇÃO DE CONTEÚDOS

Raquel e Janaína planejam recuperação

 

Em manifesto divulgado no mês passado pela reabertura segura das escolas como forma de garantir o direito de crianças e adolescentes à educação, representantes da Unesco no Brasil afirmam que a pandemia aprofundou o fosso das desigualdades de aprendizagem. O documento registra que, em casa e sem recursos adequados – como computador e acesso à internet –, meninos e meninas em situação de vulnerabilidade social estão sendo deixados para trás.


Com base nesta constatação, fartamente documentada por pesquisas e depoimentos de pais, professores e autoridades, a Organização das Nações Unidas para a Educação recomenda que a reabertura das escolas seja cercada por todas as medidas sanitárias de segurança e prevenção, mas que também inclua planejamento curricular para reduzir as perdas cognitivas decorrentes da pandemia.


A partir do manifesto da Unesco, o Instituto Jama decidiu abordar o tema da recuperação de conteúdos com as autoridades responsáveis pelas redes públicas com as quais mantém parceria em seus projetos de investimentos centrados na educação. O objetivo da sondagem é avaliar um possível redirecionamento de recursos para projetos específicos de reequilíbrio no aprendizado. Os mesmos questionamentos foram encaminhados à Secretária Municipal de Educação de Porto Alegre, Janaína Audino, e à Secretária de Educação do Estado do Rio Grande do Sul, Raquel Teixeira.


RESPOSTAS DA SECRETÁRIA JANAÍNA AUDINO (Smed/Poa)

1) Como as escolas da rede estão sendo orientadas para recuperar os conteúdos perdidos durante o recesso causado pela pandemia?

Na Educação Infantil, não há recuperação de conteúdos. Todo trabalho está voltado para a manutenção do vínculo, com o levantamento de interesses e necessidades das crianças para promoção de experiências lúdicas. No Ensino Fundamental, após aplicação da avaliação diagnóstica prevista para iniciar em setembro, as escolas poderão prever no seu plano de recuperação as lacunas de aprendizagens dos alunos, focando nas habilidades e competências que não tenham sido desenvolvidas durante o período de impossibilidade das aulas presenciais.

2) Há condições de fazer uma avaliação diagnóstica com os estudantes para que os professores possam elaborar planos de aula centrados nas carências?

Há condições de fazer uma avaliação diagnóstica com os estudantes e estamos iniciando esse processo na Rede Municipal de Ensino. Neste segundo semestre, apostando no retorno presencial dos estudantes, a SMED, através da Gestão de Dados e Indicadores Educacionais, constituiu uma Comissão Interna de Professores que elaborou matrizes de habilidades e provas de Língua Portuguesa e de Matemática para todos os anos do ensino fundamental, à exceção do 1º ano. As provas foram enviadas às escolas para serem aplicadas pelos professores. Esse diagnóstico será um balizador para implementarmos o programa de correção de fluxo escolar já no início do ano letivo de 2022.

As provas serão realizadas considerando o cronograma:

Setembro: 30% dos estudantes matriculados (preferencialmente os que não tiveram contato com a escola presencialmente em 2020/2021).
Outubro: 30% dos estudantes matriculados (preferencialmente os que apresentaram dificuldades na aprendizagem em 2020/2021).
Novembro: 40% dos estudantes matriculados (demais estudantes).
A ideia é que todo o processo esteja concluído até o mês de novembro, permitindo que, finalizada a análise dos desempenhos possamos organizar as principais estratégias de recuperação ainda no ano letivo de 2021.

3) Como outros setores da comunidade podem contribuir para ajudar na recuperação das perdas da pandemia e na busca de ensino público de qualidade?

A pandemia atingiu todas as etapas da educação básica, principalmente no processo de alfabetização e na manutenção do vínculo para atrair os alunos no ensino remoto devido à falta de recursos, equipamentos e disciplina para estudar. É necessário que todos os setores se sensibilizem sobre a importância do retorno 100% das aulas presenciais. A prefeitura de Porto Alegre, recentemente lançou uma campanha de incentivo ao retorno presencial dos alunos da nossa rede. Na primeira semana, após o início da campanha, cerca de 15 mil alunos da rede municipal retomaram as atividades presenciais. O número é 30% maior do que o registrado, como média, na penúltima semana de julho, a semana final do primeiro semestre letivo de 2021. É fundamental, também, que disponibilizemos recursos para qualificar os espaços escolares e intensifiquemos rotinas de higiene e limpeza; ampliemos parcerias com projetos que atraiam o interesse dos estudantes; promovamos ações pedagógicas que sustentem superar as lacunas de aprendizagens.


RESPOSTAS DA SECRETÁRIA RAQUEL TEIXEIRA (Seduc/RS)

1) Como as escolas da rede estão sendo orientadas para recuperar os conteúdos perdidos durante o recesso causado pela pandemia?

A partir de um mapa estratégico alinhado com todas as outras áreas do Governo, a secretária da Educação definiu a sua missão, os seus direcionadores, valores e projetos estratégicos. Um dos principais programas estratégicos da secretária chama-se recuperação e aceleração da aprendizagem (Aprende Mais). Ele é desenhado especificamente a partir dos dados da avaliação diagnóstica feita. Montamos um material didático especifico, abordando todas as lacunas de aprendizagem encontradas em todas as séries, desde o 2º ano do Ensino Fundamental até o 3º ano do Médio. A partir desse material, estamos trabalhando a formação dos professores de todas as turmas para que essa recuperação atue diretamente nas lacunas de aprendizagem dos nossos alunos. A ação resultou na necessidade de um aumento significativo na carga horária dos nossos professores de Língua Portuguesa, com mais 2 horas semanais, e de Matemática, com mais 3 horas semanais, para suprir as carências apontadas pela avaliação diagnóstica. A iniciativa de recuperação e aceleração é uma urgência e já está em andamento no RS.

2) Há condições de fazer uma avaliação diagnóstica com os estudantes para que os professores possam elaborar planos de aula centrados nas carências?

A avaliação diagnóstica da rede estadual do RS já foi realizada. Ocorreu entre o final do mês de maio e início de junho, em parceria com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF). É o centro de avaliação educacional mais respeitado do Brasil, que trabalha há mais de 20 anos nessa área, atuando com o Saeb e IDEB. Nossa avaliação diagnóstica teve a participação de 524 mil estudantes, a maior da história do RS. Dos sete estados que realizaram este tipo de avaliação, o Rio Grande do Sul foi o que conseguiu o maior percentual de participação dos seus estudantes, alcançando 72% da rede no geral.
Quando fazemos recortes por etapa de escolaridade, a participação no Ensino Médio foi de 54% o que significa uma sinalização preocupante de abandono e evasão destes estudantes.
A partir da avaliação diagnóstica, trabalhamos intensamente ao longo dos meses de junho, julho e agosto para a identificação das carências de nossos estudantes. Realizamos o planejamento a partir de quatro grupos de estudantes: muito baixo desempenho, baixo desempenho, médio desempenho e alto desempenho.
Estamos atuando na formação dos professores por meio de devolutivas das provas, com metodologias ativas, práticas de ensino, casos de sucesso, entre outras ações. A avaliação diagnóstica permite que cada professor tenha acesso a todas as provas e desempenho de cada um de seus alunos, o diretor tem acesso aos resultados de todas as turmas, o coordenador regional de todos os alunos de todas as escolas de sua regional e a Seduc tem os dados dos alunos de todo o Estado. Por isso, estamos fazendo uma formação de professores extremamente robusta, baseada em evidências, com material didático específico atrelado ao Referencial Curricular Gaúcho. Será o maior programa de recuperação e aceleração da aprendizagem já feito no estado. Inclusive, a ação implicou na contratação de 4 mil professores para essas aulas extras de Língua Portuguesa e Matemática.

3) Como outros setores da comunidade podem contribuir para ajudar na recuperação das perdas da pandemia e na busca de ensino público de qualidade?

Um dos exemplos de como outros setores podem participar é o que o Instituto Jama fez, ao contribuir financeiramente para a finalização dos materiais didáticos do projeto de recuperação e aceleração. A contribuição nos garantiu a agilidade para que possamos oferecer os materiais para nossos professores e estudantes
A comunidade pode colaborar apoiando projetos sérios, com base em evidências, voltados para os resultados de aprendizagem do aluno. A sociedade toda precisa ter esse tipo de atitude, pois só teremos uma educação pública de qualidade quando todos entenderem que a educação não é apenas responsabilidade da secretária de educação ou da Secretaria de Educação.
É preciso uma aldeia para educar uma criança, toda a sociedade precisa se envolver na educação. E na educação pública, porque 82% dos estudantes gaúchos estão nas escolas públicas. É aí que se monta a verdadeira máquina da democracia, de avanço, de conhecimento, de habilidades e de competências necessárias para os desafios do século 21.